outubro 27, 2005

Primados

Os comentários tecidos a propósito deste post do Sector B32 merecem alguns esclarecimentos.
Sendo verdade, como escrevi no Críticos da Bola, que Filipe Soares Franco, como Miguel Ribeiro Telles, defendem uma reorganização estrutural habitualmente denominada por "primado do futebol", representando uma tendência que privilegia a principal actividade do clube - o futebol -, reclamando para esta o epicentro dos proveitos realizados, nem por isso o "projecto Roquette" é posto em causa.

Podemos dizer que, dentro dos valores instituídos pelo antigo presidente, esta é uma corrente de opinião que não constitui qualquer ruptura com o passado, apenas uma redefinição estratégica. Aquilo a que José Roquette se referia nas declarações recordadas pelo Sector B32 é bem diferente: há quem pretenda que o clube "sirva" o futebol. Quer isto dizer que, na óptica de alguns iluminados, os sócios, os adeptos, a estrutura do Sporting, os seus funcionários e todos os recursos devem servir o... futebol, custe o que custar, independentemente dos interesses e compromissos da entidade.

Num dos comentários, o João faz a defesa de certos princípios que se enquadram no tal "primado do futebol", mas coloca o acento nos erros cometidos pela SAD. Nesta análise reside o "busilis" da questão.

É inequívoco que foram cometidos erros, como em qualquer estrutura responsável pela gestão de uma equipa de futebol: a diferença está na margem desses erros.

Falhar uma contratação que custou um milhão de euros pode ser compensado por outra equivalente que tenha sucesso - Enak custou menos de 500 mil euros e foi transaccionado por 7 milhões. Por outro lado, quando se faz uma aquisição por 7,5 milhões para o mercado português, as mais-valias potenciais são extremamente reduzidas: ou seja, em caso de sucesso, a margem de lucro é diminuta enquanto, na hipótese de um fracasso, serão necessárias muitas alienações e algumas temporadas para reparar o "buraco".

Os defensores do investimento não sustentado - sem relação com a capacidade de gerar receitas - estão dispostos, conscientemente, a hipotecar recursos com base em proveitos futuros que, nem no melhor cenário, seriam capazes de cobrir as despesas.

Este foi o caminho seguido num passado não muito distante, incompatível hoje com o rumo traçado pela moderna indústria do futebol, que o Sporting de Roquette e Dias da Cunha ajudou a fundar.

Uma última palavra para clarificar a minha posição sobre esta matéria. Não contesto a necessidade de encontrar um modelo de gestão desportiva eficaz, sabendo que desta depende o "bem-estar" do "universo clube", estando mesmo disposto a discutir as vantagens de uma maior "centralização" dos proveitos em torno da SAD, numa tentativa de equilibrar ambições e necessidades financeiras. Acredito, porém, que a gestão levada a cabo por Dias da Cunha não deve ser abandonada, sob pena de se prejudicar o que de mais importante tem sido feito em prol da futura independência do Sporting relativamente aos seus parceiros financeiros.

Simultaneamente, os dirigentes verde e brancos, com os seus sócios e accionistas, devem encontrar uma solução mais eficaz para o sucesso desportivo. São aspectos diferentes que, no meu entender, nada têm de incompatíveis. Defendo este conjunto de princípios para os de Alvalade, como para o restante futebol português, por estar convencido de que é esta a única forma de garantir a manutenção e evolução da elevada competitividade que temos demonstrado, a nível internacional, neste sector de actividade.

Poderá mesmo ser uma questão de sobrevivência...

JEAN-PAUL LARES

Posted by MeisterMumia at outubro 27, 2005 05:37 PM
Comments
Mas, precisamente por achar que não tem o acordo da maioria, FSF anunciou há muito que não tenciona candidatar-se. "Sporting", Soares Franco nunca esteve nas reuniões do Manifesto, pelo contrário, não só discordou (e expressou-o por carta) como lamentou que a sua posição não tivesse sido devidamente ponderada. João, é mais ou menos isso, sendo apenas necessário precisar que a primeira e a segunda "vias" obedecem a princípios semelhantes - sim, FSF está com Ribeiro Telles e vice-versa. Kova, não disse o contrário, aliás, se leres o que escrevina resposta ao teu comentário, verás que me limitei a concordar contigo. Os tempos vividos no início da era Roquette - parece que já ninguém se lembra - eram precisamente caracterizados pelos equívocos na gestão desportiva: independentemente disso, e bem, os sócios do Sporting pivilegiaram a necessidade de sanear o clube e tiveram paciência - que é como quem diz, "com tempo, o homem há de aprender". A asneira imperou durante muito tempo - quer nas contratações quer na escolha das pessoas que por elas seriam responsáveis, de Janela a Norton, de Abreu a Duque - e, se querem que lhes diga, prossegue hoje e vai existir sempre. A diferença é que, hoje, há consciência dessa inevitabilidade e, por isso, gere-se em função da margem de risco que a conjuntura permite. Posted by: Jean-Paul Lares at outubro 28, 2005 01:54 PM
Na entrevista que deu, falava pura e simplesmente em acabar com elas. Prevêem-se umas eleições concorridas e onde haverá diferentes concepções para o futuro do clube. Posted by: Sector B32 at outubro 28, 2005 01:01 PM
Isto vai animado no reino do lagarto. Não quero intrometer-me, mas gostaria só que o Sector me esclarecesse uma dúvida: o que pensa fazer o Soares Franco com as outras modalidades? Posted by: Glorioso 11385 at outubro 28, 2005 12:43 PM
José Roquette. E quanto aos nomes que referi no primeiro comentário deste post, nenhum foi contratado por Luís Duque. Foram todos contratados na presidência de José Roquette quando Carlos Janela e Norton de Matos trabalhavam para a SAD. Luís Duque estava fora do clube. Posted by: kovacevic at outubro 28, 2005 10:28 AM
Uma pergunta: durante o "reinado" de que presidente, foram contratados Mirko Josic e Vicente Cantatore? Posted by: zalayeta at outubro 28, 2005 09:46 AM
O problema do Sporting, chama-se "projecto". Primeiro o Roquettte, depois o Cunha, agora o Franco e a seguir já se prepara um tal Ernesto. Só merda. Reestruturaram o clube e profissionalizaram-no de alguma forma, mas encheram aquilo de tachos e empregos para os primos e as amantes. Pelo meio foi preciso um homem fora do "projecto" para ganharmos um campeonato. Basta ver quem foram os treinadores do "projecto"; Octávio Machado, Carlos Manuel, Materazzi, Waseige, Fernando Santos, Boloni e Peseiro. E preciso dizer mais alguma coisa?? O Sporting já existia antes do "projecto" e vai continuar a existir depois do "projecto" quando forem corridos ao pontapé nas próximas eleições. Puta que os pariu. Posted by: Jean Paul sem lar at outubro 28, 2005 05:14 AM
A dificuldade de comentar o Sporting está no Amor que temos por ele.:) Sinceramente, não concordo com esta separação que fazes (pões o Freitas ao barulho???). E mais, não concordo com a separação que se tem feito aqui pelo Sector. Gosto mais de saber para quem vai ser gerido o Sporting e quem vai ter sempre a última palavra a dizer no Clube, se os accionistas ou se os Sócios. Outra questão, como o futebol é o motor do Sporting, mas não o Sporting, se não tivermos investimento (não apenas investir em jogadores, mas também investir em organização e modernização) não haverá saneamento financeiro que nos salve. Portanto, se o Dr. Bettencourt ou o Dr. Meireles avançarem para a presidência terão o meu apoio. Abraços e até amanhã! Sporting! http://povoleonino.blogspot.com Posted by: Sporting! at outubro 28, 2005 12:12 AM
eu sei que parece ridiculo todas estas distinções, mas isto de comentar sobre o Sporting é quase tão dificil como comentar sobre as presidenciais. Com tanta gente metida ao barulho, já ninguém sabe quem defende o que!:-> Posted by: joaoscp78 at outubro 27, 2005 11:59 PM
Epá, ó SPorting, não compliques senão ng se entende aqui!:-> Ora, recapitulemos:1ª via: "continuidade"(Roquette, Dias da Cunha, sr.q nao me lembro do nome), 2ªvia "primado ao futebol (Bettencourt,Telles, Freitas, Soares) e a 3ªvia "Sporting, pá ganhar há q gastar" (Duque e Dias Ferreira). tou certo ou não? Posted by: joaoscp78 at outubro 27, 2005 11:57 PM
Só espero que a segunda alternativa se imponha definitivamente neste Sporting. Se alguem que conhece o Telles, que lhe que chegou a sua hora de fazer história no clube. :-> Posted by: joaoscp78 at outubro 27, 2005 11:51 PM
joaoscp78, não vejo o Miguel Ribeiro Telles numa posição alinhada com Soares Franco. Vejo-o mais alinhado com o Bettencourt e o Rui Meireles, e até com Roquette. Em que há a noção que o futebol é o motor do Sporting, mas que o Ecletismo nunca pode ser posto em causa, assim como os Sócios. O que não quer dizer que se assista ao despesismo nas modalidade ditas amadoras e o futebol "trabalhe" para elas, apenas. Dias da Cunha parece-me o mais "tradicional" de todos, mas o seu modelo organizativo nunca me pareceu muito claro e é bastante centralizado na figura do presidente. Veja-se por exemplo a confusão que é a organização do Grupo Sporting. Soares Franco é...acho que já escrevi em demasia sobre ele num tão curto espaço de tempo. Com isto alinho na ideologia dos primeiros, principalmente da de Bettencourt. Sporting! http://povoleonino.blogspot.com Posted by: Sporting at outubro 27, 2005 11:48 PM
So digo isto: este JPL é um senhor. dos melhores blogueiros que conheço. estou 100% de acordo com ele. Posted by: ... at outubro 27, 2005 11:42 PM
Parece haver aqui uma pequena confusão, que confesso ser tb a minha....ora,JP, disseste que "Trata-se aqui de uma questão de visão estratégica, que em pouco difere no que à aplicação prática diz respeito. Isto é, mesmo a opção pela segunda alternativa - primado do futebol - não significa um exponencial aumento das verbas disponíveis para investimento - leia-se salários ou reforços. Pelo contrário, as margens de manobra são reduzidíssimas e estão definidas pelas obrigações contraídas junto de terceiros." Então vamos lá situar-nos. Há a primeira alternativa, idealizada por Roquette e Dias da Cunha e defendida como sendo a da "continuidade" por um senhor que nem me lembro como se chama e,que define a importância do Sporting como grupo de empresas, entre as quais o futebol forma parte; depois, vem a do "primado do futebol" defendida por Soares Franco e Ribeiro Telles (candidato ou não?) que defende mais ou menos o mesmo do projecto Roquette divergindo apenas na orientação das receitas e na prioridade das diversas empresas;e, por fim, uma terceira via, encabeçada por Duque ou Ferreira, que defende uma politica mais ousada, de (i)mediatismo, de investimento na equipa de futebol o mais que se possa, pq o que interessa mesmo é ganhar campeonatos e taças. É mais ou menos assim ou não? Posted by: joaoscp78 at outubro 27, 2005 11:36 PM
JPL, em relação ao Soares Franco e ao dito manifesto, as informações que sempre tive foi aquela que escrevi no meu blogue. E vendo os negócios que a OPCA tem com a empresa de Filipe Vieira e o comportamento de Soares Franco no futebol, sempre me pareceu lógico a associação do Sporting ao benfica por parte deste dirigente. Agora, isto é como tudo: só sabe quem esteve mesmo nas tais reuniões. Sporting! http://povoleonino.blogspot.com Posted by: 852514 at outubro 27, 2005 11:35 PM
Já agora, uma outra questão para toda a gente: qual o papel das outras modalidades? Não serão elas parte integrante e fundamental da identidade do Sporting? Ou por outro lado, nos tempos que correm, há que ser pragmático e aceitar definitivamente que o negócio do Sporting é futebol e ponto final? A lógica fria e racional empurra-me para a segunda, mas sempre me habituei a ouvir e a sentir o Sporting em qq modalidade. Soares Franco já foi bem claro em relação ao que pensa fazer com as outras modalidades. Posted by: Sector B32 at outubro 27, 2005 11:34 PM
JMBB, por acaso as contas do Sporting até estão no verde (positivas) :) A mim nada de pessoal me move contra o Luis Duque, bem pelo contrário. Mas a concepção que tenho para o futuro do clube é diferente. No Porto Pinto da Costa sempre foi o presidente da SAD. No Sporting, já houve os 2 casos, presidente de clube ser o mesmo da SAD e presidência bicéfala. Posso estar enganado mas julgo que a melhor solução passa por ter o mesmo presidente existindo no entanto a figura de um director desportivo. Porque o core business de um clube de futebol é de facto o futebol. Posted by: Sector B32 at outubro 27, 2005 11:30 PM
JPL, um dia terás que nos dizer o que te move contra Luís Duque, o homem já saíu do Sporting há vários anos. Cometeram-se erros antes de ele chegar ao Sporting, cometeram-se erros enquanto ele esteve no Sporting e continuaram-se a cometer erros depois de ele sair. Já em relação ao tema, um clube como o Sporting não pode viver sem ter uma equipa competitiva, e este ano tivemos a real prova disso. Os resultados não apereceram caíu o treinador e o Presidente. A conversa do Roquete é muito linda, mas ele tem que aceitar que foi o futebol que fez do Sporting aquilo que é, e não o contrário. Não faz sentido que o Sporting tenha (o que não é o caso) as finanças positivas e a sua equipa de futebol não seja competitiva... Posted by: jmbb at outubro 27, 2005 09:34 PM
Só mais uma coisa, "Sporting". Estive a ler o teu blog e, no que diz respeito a Soares Franco, há uma incorrecção nos teus posts. O actual presidente nunca esteve de acordo com o "Manifesto" e com a consequente aproximação ao Benfica, bem pelo contrário: essa foi uma das razões da renúncia aos cargos que ocupava nas empresas do universo leonino. Posted by: Jean-Paul Lares at outubro 27, 2005 08:44 PM
Repara "Sporting", que Soares Franco assumiu essa opinião, mas sempre sujeita à aprovação dos sócios. Defendeu, na entrevista a que te referes, que essa deveria ser uma discussão a promover entre os sportinguistas, que considera soberanos, reconhecendo à partida que a maioria não deveria concordar com ele. Hoje, ocupa a presidência num enquadramento diferente, vinculado a um projecto anterior. Não poderia, nem quereria, fazer vingar a sua posição à revelia do suporte eleitoral que esteve na base desta direcção. Posted by: Jean-Paul Lares at outubro 27, 2005 08:29 PM
Continuando o que diz o Kovac, também foi na presidência de Dias da Cunha que o Rodrigo Tello, o tal do milhão e meio de...contos (supostamente). Mas, falando do que o JPL disse sobre o Clube servir o futebol e não contrário, reforço mais uma vez a ideia que é este presidente, Soares Franco, que defende o Sporting igual ao Chelsea: o dono do Clube não são os Sócios mas os accionistas. E, diz ele ainda, que o futebol actual e de futuro é incompativel com um Clube governado pelos Sócios. Portanto, meus amigos, observem a chamaada "continuidade" necessária para a sobrevivência que está à frente do NOSSO Sporting! Sporting! http://povoleonino.blogspot.com Posted by: Sporting! at outubro 27, 2005 07:18 PM
Inteiramente de acordo. Esse erros foram, na sua maioria, cometidos numa altura em que a separação entre o clube e a SAD era bem maior, estando a segunda entregue a Luís Duque. Não quero com isto dizer que, antes e depois, não existiram equívocos de igual importância, mas foram as graves consequências dos que mencionaste que estiveram na base da transição que se seguiu, rumo a um maior rigor. Subscrevo, também, a necessidade de aperfeiçoar. Posted by: Jean-Paul Lares at outubro 27, 2005 07:13 PM
Sem querer ser chato, preciso dizer o seguinte: muitos desses investimentos com pouca ou nenhuma margem de retorno, de que tu falas, foram feitos sob a presidência de José Roquette em três ou quatro épocas consecutivas: Carlos Miguel, Leandro, Gimenez, Duscher, Kmet, Hanuch, etc. Como se sabe, resultou um, Aldo Duscher. Portanto, concordando com o que escreves neste post, e concordando que Roquette e Dias da Cunha não preconizam este tipo de apostas de risco máximo, também acho que o joãoscp78 tem razão quando refere que foram cometidos erros no decurso do projecto Roquette. Foram. Vários, durante vários anos e com consequências importantes. Esta é a fase ideal para analisar o passado e aperfeiçoar a estratégia. Não é preciso mudar, é preciso aperfeiçoar. Posted by: kovacevic at outubro 27, 2005 05:59 PM
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